Truck Art Project - Arte sobre rodas

Toda a arte tem o seu princípio e a sua origem, e não são somente em telas, folhas, quadros ou muros que a encontramos.

O Truck Art Project apresentou-se na principal feira de Arte Contemporânea que há em Espanha: a ArcoMadrid, em 2016, e desde então “nenhum camião consegue passar despercebido”, acrescenta Marcela de La Peña, assessora de comunicação da empresa. Trata-se de uma frota de camiões, que serve de suporte ou lona para apresentar as obras dos diferentes artistas, e que ao mesmo tempo realiza, normalmente, as suas habituais rotas comerciais por terras Espanholas.

O Truck Art Project baseia-se em três valores fundamentais. Entre eles a Arte em movimento, onde os camiões que fazem as suas rotas comerciais normais dão lugar a quadros sobre rodas, transformando-se em telas artísticas e criando uma rede de arte em locomoção com as tendências mais actuais da arte espanhola. Estas obras de arte com cerca de 12 metros de comprimento viajam por toda a Espanha, impressionando todos aqueles que as vislumbram e contemplam e funcionando como autênticas galerias artísticas itinerantes a céu aberto, exibindo verdadeiras exposições de obras dentro deles, permitindo o acesso a todo o tipo de público e facilitando-o àqueles que residem longe dos circuitos regulares de arte contemporânea.

Todas estas condições fazem com que este projecto seja visto como um desafio para os artistas, não só ao nível criativo, mas também na medida em que lhes oferece condições nas quais os mesmos não estão habituados a trabalhar, obrigando-os a inovar e a e sair da sua zona de conforto.

OS RESPONSÁVEIS PELO PROJECTO

Jaime Colsa (director)

Jaime, de 46 anos, é um empresário espanhol e um coleccionador de arte contemporânea assim como de música, teatro e arte urbana. Em 2012, fundou a Palibex, uma empresa de transporte urgente de mercadoria, nomeadamente paletes de madeira; esta é a primeira e única rede de transporte urgente de paletes com 100% de capital espanhol.

O Truck Art Project é a fórmula alternativa, a solução posta em marcha por Jaime para continuar a coleccionar arte, ainda que de outra forma e sabendo que, no final de contas, nunca será o proprietário daquilo que hoje em dia ajuda a criar. Este projecto insere-se e assenta na aposta pela arte contemporânea e no compromisso de Jaime com a mesma, contudo agora num novo capítulo da sua actividade e com uma outra forma de promover a criação actual e mostrando que aproveitá-la é possível.

Fer Francés, curador (Arte Contemporânea)

Galerista desde os 18 anos, Fer aprendeu os truques do comércio e viveu todo este mundo da arte ao lado do seu pai, director do CACMálaga. Desde sempre que se sentiu atraído pela arte pública devido à dimensão popular que esta consegue alcançar, seja nos muros das cidades ou nas paredes de certos edifícios, e a forma como é vista e assimilada pelas pessoas, acabando por incutir o gosto pela arte aos cidadãos.

O curador está convicto que a arte pública é uma ferramenta de democratização da arte contemporânea que promove o aumento e o interesse da população em visitar museus e galerias de arte levando, em muitos dos casos, à descoberta do gosto pela arte.

Oscar Sanz, curador (Arte Urbana)

Sanz é a alma por trás do Ink And Movement (iam), uma agência de arte que facilita a colaboração entre os talentos internacionalmente mais relevantes com a arte urbana que se sente em Espanha. Para o curador, Truck Art Project junta dois mundos que são como que a cara e a coroa de uma mesma moeda: a arte mais clássica e a arte urbana.

Oscar realça ainda a recepção natural existente neste projecto, no qual não existem pautas definitas – as lonas dos camiões são pintadas e a partir daí, a temática e a técnica são completamente livres. Os artistas tendem a quebrar o rigor, a experimentar coisas tanto insólitas como excêntricas e, por isso, este é um projecto interessante na medida em que rompe com o estabelecido.

ARTISTAS

“A selecção dos artistas é feita através dos comissários; a maioria é espanhola e contamos com alguns internacionais, mas a verdade é que não temos nenhum artista português neste momento, mas gostaríamos de poder contar com algum no futuro”, reforça Marcela. Ao todo este projecto já conta com a participação de mais de vinte artistas. Entre eles estão nomes como Javier Arce, Suso33, Okuda San Miguel, Abraham Lacalle, Marina Vargas, Javier Calleja, Daniel Muñoz, Sen2 Figueroa, Rosh333, Nano4814, Spok, Andi Rivas, Santiago Ydañez, Gorka Mohamed & Matías Sánchez, Sixe Paredes, Carlos Aires, Celia Macías, Aryz, Remed, Sergio Mora, Cristina Lama, entre outros.

Nascida em Madrid, em 1974, Nuria Mora foi outra das artistas que, montada na sua vespa vermelha, se apropriou das lonas de um dos camiões e o inundou com a sua sensibilidade e arte. Diz expressar-se através da arte em vez de usar palavras porque “pintar na rua e pintar um camião são coisas semelhantes, mas com a diferença de que o espectador não precisa necessariamente de estar em movimento, porque, neste caso, é a tela que se move”.

Já Felipe Pantone, natural de Buenos Aires, desenvolve um trabalho que vai desde o graffiti à arte cinética; contrastes fortes, cores intensas, efeitos e uma boa quantidade de recursos usados para fazer as suas peças geram um forte impacto no espectador, talvez seja essa a razão pela qual o seu nome está espalhado por muitas das cidades mais importantes do mundo e o seu estilo continua em constante mudança, através de várias influências, mas sempre mantendo o seu selo de qualidade habitual.

Para Ana Barriga, de Jerez de la Frontera, a arte trata-se de um equilíbrio entre a razão e a emoção, a paixão e o conhecimento. Este projecto fez com que Ana tivesse de pensar em ínfimas possibilidades de pintura, o que envolvia pensar em algo e passá-lo para um suporte completamente diferente e em escala móvel. Relativamente ao seu discurso artístico, tentou manter a linguagem e o modo dela própria entender a pintura. “Talvez seja porque é o que eu sei e faz parte da minha pesquisa pictórica. É, em todo caso, uma extensão do meu trabalho, não apenas em conteúdo, mas em linguagem, meio e forma”, afirma a artista.

O objectivo de Truck Art Project é ter uma centena de veículos pesados a circular e a parar em grandes cidades, médias e pequenas localidades.

De momento, este projecto apenas existe em Espanha, mas segundo Marcela há várias empresas internacionais com o interesse em desenvolver o projecto nos seus países. “Gostaríamos que futuramente se pudessem ver, em todo o mundo, camiões caracterizados por artistas, mas de momento apenas é possível na Palibex”, acrescenta.

Fazer chegar Arte ao maior número possível de pessoas é o lema. Uma vez que as lonas dos camiões não devem servir apenas para figurar o nome de uma empresa e um logótipo ou uma imagem comercial, estes camiões são grandes telas sobre rodas, prontos para percorrer centenas de quilómetros em vias e estradas, de modo a espalhar a Arte que os adorna.

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